“Por aqui passou Pilatos”
Um atentado á nossa memória colectiva
Uns olhinhos de águia e um nariz adunco .Resposta pronta, sempre na ponta da língua. Foi assim que conhecemos Manuel Brandão, ”O Pilatos”. Artista a fugir das cadeias, chegou a chefiar uma quadrilha no pinhal da Azambuja, frequentou salões chiques e viveu um rigoroso Inverno na capela de S.to André, onde queimou o soalho para se aquecer e desafiou o santo a parar a chuva ”se não quisesse também saltar para a fogueira”.
Das muitas fugas da cadeia , ficou célebre uma, que ele próprio nos descreveu assim:
«Isso de cadeia não era comigo: pássaro que está na gaiola anda de lado para lado a espreitar o furo. Só da cadeia da vila saí pelo menos três vezes. Uma das vezes comecei a fazer umas gaitinhas de choupo e chamava a canalha para as grades. Ora, aquilo era uma alegria!...Tocavam, tocavam, e eu, então, ia para um cantinho e truque, truque, lá ia entrando o ferrinho!...Outra vez foi pelo cano do esgoto, depois de ter experimentado com uma cortiça da minha largura presa por uma corda , a ver se passava até ao rio. Mas a que nunca me esquece, vejam bem o que era cá o fidalgo, foi quando subi para a sala do tribunal depois de furar o soalho. Subi, e claro, como tinha vontade de fazer o “servicinho” , aliviei ali mesmo a barriga em cima da mesa do juiz, pois então!...Depois com um dedo sujo, escrevi: - Por aqui passou Pilatos. O senhor Doutor Juiz andava a passear na praça e eu passei muito descansado. Mas já ao alto da vila, comecei a ouvir gritar:
- Cerca que é ladrão!...
Mas, não me assustei...meti-me no meio daquela rusga e toca a gritar também:- cerca que é ladrão. Vejam que bando de ladrões !...»
Pouco antes da sua morte, em 1982, numa carta dirigida á “Defesa” afirmava:«Concordo contudo o que o Sr. Escreveu, mas o fecho da obra ainda está comigo. Mande-me chamar quando entender.»
Passados dias morreu: levou-o uma pneumonia .
Agora as autoridades, num país onde, pelos vistos, até á memória dos povos pouco interessa, não conta, decretaram-lhe uma Segunda morte: mandaram triturar o processo, impedindo o seu estudo e pondo fim a um testemunho valioso para as gerações futuras.
Mas vivemos num tempo assim: mercantilismo, verborreia barata, negação da história.
Ficam as crónicas da “Defesa”. Pelo menos essas, estamos certos disso, nunca nenhum “esperto” vai conseguir triturar.
Este era o mais célebre ladrão arouquense do século xx: o Manuel Brandão, mais conhecido por “pilatos” ,um aventureiro, que acabou a vida ao serviço da câmara de Arouca nos sanitários da praça.